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Apenas 15 dias depois do day-after das presidenciais, começam a puxar para trás os lençóis da cama onde o governo se prepara para o repouso eterno. É certo que, para muitos, o executivo vai deitar-se no leito que preparou para si, mas não deixa de ser curioso perceber que os habituais tarólogos da política já deram o tiro de partida para o (im)paciente voo dos abutres.
Afinal, se o governo está morto, está na hora de se começar a debicar o cadáver. Digo debicar porque há quem considere que ainda não está na hora da refeição. Há que esperar o momento certo e não haver precipitações, até porque pode ser de Belém que venha a certidão de óbito, agora que o segundo mandato parece tudo legitimar.
Uma coisa é certa: o governo pode não ter morrido, mas virou, com toda a certeza, um daqueles sacos de areia em que os boxistas fazem o seu treino, aquilo a que vulgarmente o povo gosta de chamar de 'saco de pancada'. De tal forma, que até há quem, de dentro, aproveite para ajustar contas passadas, escudados pelo legítimo direito à diferença de opinião e liberdade de a expressar.
Agora, é o caminho mais fácil. Aliás, chegou a hora dos fracos sairem de cena de fininho para, na hora do funeral, poderem até alinhar na maledicência ao falecido bem como os oportunistas que, percebendo que terão de colocar na loja o letreiro do 'Volto Já', começam a encher o porquinho mealheiro para o tempo de vacas magras que se avizinham. Há até números que, oportunamente, aparecem nestas alturas libertando apenas comentários do género "Que grande novidade!" A minha dúvida é só esta: esta sondagem reflecte o momento ou um sentimento de leitura mais ampla?
O governo morreu, viva o governo! Porque como dizia a minha avó, atrás de mim virá quem de mim bom fará.
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Aviso: este post é uma reciclagem do anterior com um pequeno up-grade!
Sinceramente, não sei se é por causa de uma certa vertigem do fim, mas a verdade é que certos membros do Governo estão a criar práticas muito estranhas para os hábitos da democracia portuguesa. Vamos directamente à novidade.
Então a ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, decidiu, por livre iniciativa ir à Comissão de Ética, Sociedade e Cultura explicar a integração dos teatros S. João e D. Maria II no Opart? A TSF adiantou mesmo que o pedido enviado pela ministra é mesmo uma medida inédita no país. Claro que tinha de ser inédita. Onde já se viu um ministro ir de livre e espontânea vontade prestar esclarecimentos ao parlamento?
Já não bastava os dois directores-gerais na Administração Interna terem pedido a demissão, tinha agora que vir a ministra da Cultura atirar mais lenha para a fogueira em que estão a ser queimados os velhos costumes da casa.
É o que dá convidarem independentes para o executivo.
Corrompem por completo as normais partidárias e furam esquemas que acabam por expor ao ridículo os companheiros de governo. Assim não dá. Aposto que na próximo Conselho de Ministros, Gabriela Canavilhas vai ficar de castigo a um canto da sala e a escrever 100 vezes no seu Magalhães para ser visto no vídeoprojector à frente do restante elenco ministerial (como o Bart Simpson no génerico da série): PROMETO NÃO VOLTAR A TOMAR A INICIATIVA DE IR PRESTAR ESCLARECIMENTOS AO PARLAMENTO. E proibida de usar o copy/paste!
Claro que tamanho sentido de Estado só podia ser aproveitado pela oposição. Como está referido na peça do primeiro link, o PCP aproveitou logo para pedir esclarecimentos em relação à demissão de Jorge Salavisa, precisamente da presidência do conselho de administração do Opart . Está a ver, Gabriela? Dá-se-lhes a mão e a rapaziada quer logo o braço. Que lhe sirva de lição. O sistema funciona de uma determinada maneira há tantos anos por alguma razão é. É que nem lhe valeu os votos contra do PS!
Por isso é que o povo há-de aplicar o respectivo castigo. E se não for por isso, há-de ser por outra razão qualquer. Ou não!
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Uma das coisas mais extraordinárias em Portugal é a quantidade de comentadores que aparecem em todos os meios de comunicação. Aliás, não é à toa que os programas de participação directa nas rádios e nas televisões têm tanto sucesso. Não há nenhum fórum em que não fiquem participantes de fora pelas próprias obrigações de emissão. Todos têm sempre alguma coisa a dizer. É bom. Somos feitos de uma massa crítica e, afinal, como se fartam de dizer os políticos num tom entre o cínico e o orgulhoso, foi essa uma das grandes conquistas de Abril. No entanto, parece-me que aqui se aplica bem o velho ditado popular de que 'em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão'.
Ninguém é um exagero. Alguém haverá de ter um fundo de verdade no que diz, até porque isto também não é um país de mentecaptos. Bem pelo contrário. Há gente de grande valor e arrisco-me a dizer que são a esmagadora maioria. Se assim não fosse, porque têm os portugueses tanto sucesso quando vão para o estrangeiro, nem que seja para desempenhar funções de empregados de limpeza. Nunca encarei o facto de os portugueses serem trabalhadores apreciados no estrangeiro como um mito urbano. Tirando raras excepções, porque as há em todo o lado, a verdade é que sempre ouvi reconhecer as qualidades profissionais dos portugueses lá fora, independentemente das funções que possam exercer, desde o mais simples humilde empregado da construção civil ao mais qualificado economista, como é caso de Horta Osório. Não creio que que os ingleses estejam de acordo em pagar-lhe um ordenado à Cristiano Ronaldo, só pelo seu ar de manequim da Hugo Boss.
Muitas das vezes, quando deixamos os nossos filhos em casa de amigos, desdobramo-nos em recomendações, ainda no carro, antes de os deixar em casa de estranhos, a principal para que se portem bem e para que não façam asneiras. No fundo, para que não nos deixem ficar mal. Fica-se sempre com o coração nas mãos. Sabe-se lá o que farão, já que em casa temos maneira de controlar a situação de outra forma. O espanto aparece quando os vamos buscar. Correu tudo lindamente e regressamos a casa com o orgulho de outros pais acharem que temos uns anjinhos em casa. Quem tem filhos pequenos, reconhece esta história.
Voltemos, pois, a saltar para a dimensão nacional. A questão que se coloca é simples: se somos assim tão bons, porque não o somos dentro de casa? Porque é precisamente dentro de casa que sentimos o à-vontade de sermos precisamente quem somos. Não precisamos de fingir que somos bem comportados e só quando temos um pai ou uma mãe de regras rígidas e inflexíveis a toda a linha é que percebemos que nem dentro de casa podemos vacilar. É por isso que não me espanta o facto de haver, ainda, quem tenha saudades da ditadura, onde nem dentro de casa havia hipótese de sermos quem somos. É talvez por isso que a saudade seja considerada um sentimento tão português. Pudera, lá fora não é a mesma coisa que cá dentro. É como se o nosso país representasse a eterna juventude, os tempos em que se podia fazer tudo e tudo era justificado pela tenra idade...
Não me parece viável pedir a governantes escandinavos que venham fazer uma perninha aqui ao Sul da Europa, porque a população continuaria a sentir-se em casa e os resultados não seriam os melhores. Também não pedimos aos pais de nenhum dos amigos dos nossos filhos que venham lá a casa ficar umas noites para tomar conta da criançada. Voltar à ditadura, então, está completamente fora de hipótese (agora digo eu, foi para isso que serviu o 25 de Abril!). Logo, a solução mesmo é colocarmos o povo a fazer um Erasmus de cidadania no estrangeiro. Tenho a certeza que a União Europeia concordaria, apoiando como um projecto de verdadeira integração. Para aprendermos a ser bons cidadãos lá fora. Porque isto de criticar só os governos também tem muito que se lhe diga. É que parece-me que a nossa classe política é apenas um reflexo do país que somos.
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Tudo começou aqui...
Bom, na verdade não foi bem aqui, já que o vídeo original do sem-abrigo norte-americano com a voz que encantou o Mundo já se deve ter perdido pelo TuTubo*.
Vi-o no dia em que a SIC Notícias passou o pequeno filme de cerca de dois minutos e a contabilidade foi verdadeiramente assombrosa. Se não repare-se: quando, à hora do almoço, vi pela primeira vez a notícia, a informação era que já tinha ultrapassado as 3 milhões de visualizações. Fui à Internet pouco depois e vi que já ia nas 3,5 milhões. No trabalho, ao final da tarde, mostrei a uns colegas e o contador já marcava 5,3 milhões. Ao final da noite, já em casa outra vez, voltei a ver e já ia nos 7,1 milhões. É esta a velocidade a que corre a informação nos dias de hoje. À conta disso, tal como o próprio Ted Williams desejou, choveram propostas de trabalho e, da noite para o dia, o homem deixou de ser sem-abrigo para passar a ser uma estrela, conhecido não só no seu país como no resto do Mundo.
Não consigo imaginar o mesmo a acontecer em Portugal. Aliás, provavelmente em mais lado nenhum aconteceria um episódio destes. Só mesmo nos Estados Unidos ou não fosse aquilo a Terra das Oportunidades. E dos sonhos. Há duas semanas, uma das personagens da política norte-americana a ser entrevistada no 60 Minutes foi o republicano John Boehner, o novo presidente da Câmara dos Representantes.
Basicamente, o homem que, agora, tem o poder de baralhar as contas de Barack Obama. No entanto, a imagem que passou para o público foi a de um pieguinhas, de lágrima fácil, que se emociona com a mesma rapidez com que Ted Williams passou de pedinte num cruzamento de auto-estrada à voz mais requisitada da América. Diz Boehner, sem lenço para se assoar, que quer continuar a fazer o povo acreditar no milagroso 'American Dream'
Não precisa de se esforçar muito. Ted Williams que o diga. Porém, imagino que se o homem com a preciosa voz se fizesse à estrada e andasse a bater de porta em porta à procura de trabalho, duvido que alguém estivesse minimamente interessado nos seus dotes vocais. Era o preconceito vestido com a nova roupa da moda, chamada crise. Mas os milhões de visualizações no TuTubo e o interesse da imprensa deram um empurrãozinho. Quem não gosta de uma boa história da Gata Borralheira? Então quando há verdadeiro talento envolvido, o argumento passa a ser hollywoodesco.
Este caso podia ser analisado dos mais variados pontos de vista, mas para mim só há um que interessa. Independentemente de se ter passado nos Estados Unidos e correndo o risco de ser considerado um lírico, a lição pode ser válida para todos, salvaguardando as respectivas dimensões: é preciso não deixar nunca de sonhar. Ou como diria JM Barrie na obra do Peter Pan, BASTA ACREDITAR.
Imagem: "Peter Pan" ![]()
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O Banco Comercial Português (BCP) anda numa tal maré de azar, que duvido que qualquer um dos membros do Conselho de Administração jogue, sequer, um bingo em família a feijões. Desde a saída do histórico fundador Jardim Gonçalves que nos corredores da sede do maior banco privado português o mais ouvido lamento deva ser: «Ai a nossa vida a andar para trás». E não há dúvida nenhuma que uma vez engatada a marcha-atrás, para meter a primeira de novo tem sido um caso sério. É caso para dizer que o BCP tem dado dois passos atrás, para poder dar um para a frente, ainda que tímido. Como o país, no fundo.
Deixemos a costela James Bondiana de Carlos Santos Ferreira para o fim e comecemos por ordem cronológica, se é que não me irá falhar algum episódio pelo caminho.
A saída de Jardim Gonçalves e a sua substituição por Paulo Teixeira Pinto, dupla que se viria a incompatibilizar e que ditaria a saída do segundo, foi apenas o abrir da porta aos mexericos que passaram a alimentar gulosamente páginas de jornais e precioso tempo de antena, que o banco não viu propriamente como publicidade gratuita. Era o início de um conflito interno que viria a desgastar a imagem da maior instituição bancária nacional, ao ponto de virem à praça pública, no que me pareceu na altura como uma fuga revanchista de informação, as verbas pornograficamente astronómicas envolvidas nas indemnizações a pagar a cada um dos CEO's e CFO's e outros CO's que agora não me ocorrem, inclusive a Filipe Pinhal, que esteve escassos meses na presidência do banco, até enstourar na imprensa o escândalo do BCP ter usado umas sociedades off-shore para comprar acções do próprio BCP e assim influenciar artificialmente o seu preço no mercado. Picasso teria considerado, sem dúvida, que este fora o período negro do BCP.
Mas se a coisa começou a ficar preta, as várias tentativas de recuperar têm sido desastrosas. A entrada em cena de Carlos Santos Ferreira na presidência do BCP foi esmagadora: 98% dos votos dos accionistas, derrotando Miguel Cadilhe. Merece, desde logo, o meu reconhecimento já que trabalhou directamente para António Champalimaud (sete anos) na seguradora Mundial, mas ao trazer Armando Vara da Caixa Geral de Depósitos desgraçou-se. Não sou eu que o digo. Fernando Ulrich, do BPI, ainda hoje o culpa disso mesmo. Foi, na altura, uma decisão que causou alguns dissabores ao novo comandante do porta-aviões financeiro, mas que o próprio tratou de defender com unhas e dentes. Correu-lhe mal. Havia uma Face Oculta do antigo ministro da Juventude e do Desporto que Santos Ferreira desconhecia e que voltou a manchar a imagem do banco. Costuma dizer-se que enquanto vai e vem o pau, folgam as costas, mas duvido seriamente que estas viagens da madeira castigadora sejam suficientes para o departamente de comunicação do BCP folgar.
São umas atrás das outras. Como se não bastasse, apareceu na semana passada a WikiLeaks a dar conta de uma mensagem do Embaixador dos EUA em Lisboa, a dar conta que o presidente do BCP se disponibilizou para espiar o Irão, caso o banco abrisse negócio naquele país. Santos Ferreira terá amaldiçoado a hora de ter recomeçado a ler John Le Carré. É claro que em entrevista à TVI, classificou tudo como uma tonteria completa. Pelo que me dá a perceber, o presidente do BCP acabou por chamar tonto ao senhor embaixador, já que a WikiLeaks limitou-se a transcrever o que vinha no telegrama. Não coloco em causa a seriedade do presidente do BCP. Há até quem o conheça melhor do que eu e lhe reconheça uma autoridade moral que não renego, mas então não era tonto que deveria ter chamado ao embaixador norte-americano em Lisboa e sim mentiroso.
Como não podia deixar de ser, o próprio Santos Ferreira acabou por admitir que tais notícias eram prejudiciais para si e para o banco. What else?! Mais uma tentativa falhada de sair do período negro, que parece não ter fim. É que elas não matam, mas moem. De certeza.
P.S. Gostava, sinceramente, de ter ouvido o telefonema que Santos Ferreira fez ao Embaixador do Irão depois disto de tudo ter vindo a público. E, infelizmente, não vi nenhum órgão de informação a tentar obter um comentário do diplomata, o que foi pena. É nestas alturas que fica sempre bem uma oportuna sacudidela do capote tipo: «Tentámos obter uma reacção do senhor Rasool Mohajer, que não quis prestar declarações sobre o assunto».
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Achei que não voltaria a falar da WikiLeaks, mas parece que o tópico veio para ficar. Ainda para mais agora que as revelações que afectam Portugal começam a ganhar o interesse da imprensa nacional. Mas nem é por isso que o assunto merece um novo olhar. É que já vi muitas comparações do caso à famosa expressão orwelliana e isso fez-me reler o Mil Novecentos e Oitenta e Quatro para tentar perceber se havia, ou não, uma certa inversão de conceitos.
Entendo que seja fácil colar um selo de Big Brother ao que a WikiLeaks anda a fazer. Já nem os Estados conseguem guardar segredo das suas actividades, mas ainda bem que assim é. Sobretudo quando essas actividades podem correr o risco de não ser do agrado da opinião pública. Afinal, quantos norte-americanos terão gostado de ver as imagens captadas a partir do helicóptero que disparou indiscriminadamente sobre civis no Iraque, onde estavam inclusive dois jornalistas da Reuters, e que provocou 29 vítimas mortais? Será que os portugueses gostaram de saber que o Governo, afinal, havia sido informado antecipadamente dos voos da CIA, quando tinham dito precisamente o contrário?
Na obra de Orwell, o Big Brother era o Estado (Partido, no livro) e não os Proles (povo). Aliás, destaco uma passagem curiosa, numa das introspecções de Winston Smith, a personagem principal: «O Partido dizia às pessoas para rejeitarem a evidência dos seus olhos e dos seus ouvidos». O facto de não se rejeitar essas evidências (às vezes não tão evidentes como isso) não tem de fazer das pessoas uns crime-pensantes (outro termo do livro). Aliás, o maior crime da sociedade de hoje é, precisamente, não pensar. As revelações feitas pela WikiLeaks, por mais violadoras dos segredos de Estado que possam ser, nunca poderão ser consideradas como um Big Brother is Watching You. Quanto muito, serão um Little Brother is Watching FOR You. No fundo, dão a oportunidade a qualquer um de saber a verdade e fazer os seus próprios julgamentos e fundamentar a sua opinião.
É curioso que ainda esta semana, numa reposição das conferências TED na Sic Radical, vi uma apresentação sobre a importância das cores, mas cujo princípio era válido, segundo o próprio orador, para tudo na vida. «A informação, por si só, é irrelevante. Importante é o que fazemos com ela». Neste particular argumento, o chamado mainstream media mundial está a amplificar da melhor maneira as revelações feitas pela WikiLeaks. Ao contrário do que disse Emídio Rangel, não creio que cinco dos principais títulos mundiais (The New York Times, The Guardian, Le Monde, El Pais e Der Spiegel) estejam a prestar um mau serviço à Democracia ao associarem-se às revelações. Pelo contrário. No final terá de prevalecer o princípio da verdade, doa a quem doer. E a avaliar pelas reacções um pouco por todo o Mundo, as informações tornadas públicas tem doído a muita gente.
Não me parece que a WikiLeaks também se assuma como uma espécie de Ministério da Verdade (outra referência na obra de Orwell ligada ao Partido, parábola aos departamentos de propaganda dos regimes totalitários). São apenas factos. Indesmentíveis. Pode até, como afirmou recentemente o nosso Presidente da República, tratar-se de telegramas de embaixadores muitas vezes com mensagens para agradar ao patrão. Mas o que me parece é que o Big Brother, o verdadeiro, está a ruir à conta do seu próprio princípio: nada está a salvo de se tornar público. Sobretudo se for mentira ou seja, simplesmente, uma verdade escondida.
Imagem: "Big Brother is Watching You, Bitch"
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Um destes ia no carro com o meu filho mais novo e eis que o assunto da conversa despertou-me inusitado interesse. Nada mais nada menos do que eleições para a associação de estudantes do liceu que frequenta. Escusado será dizer que a minha memória recuou uns bons anos, aos tempos em que jotas disputavam palmo-a-palmo a vitória para a direcção da AE.
Todos sabíamos quem estava por trás de cada lista embora, tenha que reconhecer, na altura votava naquela que tivesse algum amigo ou, à falta deles, na que tivesse os autocolantes mais giros, que enchiam os meus cadernos de capa preta. Aos quais fartava de sacar as páginas do meio, até os reduzir a um número mínimo de folhas que desse, pelo menos, para escrever os sumários até ao final do ano lectivo!
As lutas eram renhidas e, como naquelas idades, uns confrontos mais físicos eram desculpados pela jovialidade da malta, os debates que se queriam de elevada cordialidade, tornavam-se em ajustes de contas fora dos muros do liceu ou, quando a falta de espírito democrático ultrapassava a paciência pelo último toque de saída do dia, era mesmo nas traseiras do velho ginásio que se resolviam as contendas.
As eleições eram uma balbúrdia. Chapeladas à moda da monarqia constitucional, que nem adiantava pedir recontagem ou meter recurso no Conselho Directivo, qual observador independente das Nações Unidas. Creio mesmo que os professores e os contínuos olhavam para aquelas paródias como a silly season do ano lectivo. E lá passava...
Havia maior espírito de resignação. Não se ganhava naquele ano, ganhava-se no seguinte. Nem que fosse com o expediente do adversário vencedor do ano anterior. E com mais um reforço da juventude partidária correspondente, é claro. Ou seja, com autocolantes mais atraentes, para casos como o meu.
No entanto, já naquela altura tinha-se a plena consciência que as associações de estudantes eram uma autêntica antecâmara para uma possível e promissora carreira política (só isto dava um novo texto!). Talvez por isso eu nunca tenha aspirado à política. Sinto-me bem assim.
Mas no meio da minha viagem no tempo, algo na conversa do meu filho trouxe-me ao presente como uma injecção de adrenalina num coma alcoólico: uma das listas no liceu dele é apoiada pela TMN.
Pára tudo.
Apoiada por quem? Repetiu. Não era engano. A lista até é a T.
Custou-me a acreditar e ainda hoje estou à espera de material propagandístico da dita lista, sem sucesso. Carece, portanto, de confirmação, embora as canetas distribuídas não deixem margem para dúvidas. Porém, a acreditar na palavra do meu filho, esta radical mudança nos hábitos 'democráticos' dos estudantes até faz algum sentido, mas não no ponto que deveria ser, de facto.
Aquilo que era, para as juventudes partidárias, uma busca pelos melhores talentos na arte de convencer os seus pares (popularidade, no fundo!), acabou por se transformar numa fidelização de clientes na raiz.
Mas deixemos as considerações de lado e continuemos na conversa. Apesar dos seus 12 anos, o meu filho já percebeu o que lhe espera no futuro. Disse-me que havia listas a prometerem coisas que não podiam cumprir. Uma delas disse que se ia bater pela existência de um dia sem aulas, exclusivamente dedicada ao surf. Ri-me e pensei logo que essa lista só podia ser afecta ao Bloco de Esquerda: pode até ter uma ideias, do ponto de vista popular, interessantes (atenção, utilizei o verbo PODE), mas toda a gente sabe que são difíceis, se não impossíveis, de se concretizar.
Ouvi-o a contar mais pormenores das campanhas, em que quase todas as listas tinham Playstations na escola para os miúdos jogarem nos intervalos. Quem as deu?, perguntei. Trouxeram de casa, respondeu-me o miúdo. Fiquei perdido, sem saber qual o andamento a dar à conversa.
O meu pensamento estava na TMN. Que o poder político está cada vez mais subjugado ao económico, disso não tinha grandes dúvidas. Só não sabia é que essa triste realidade tinha já descido aos 'militantes de base'. Houve alguma coisa aqui no meio que me falhou à grande. De repente, veio-me à memória uma matéria que tinha dado em inglês no liceu chamada Generation Gap. Nunca pensei vir a senti-la, sinceramente.
Num passeio cibernáutico, dei com esta citação de Edmund Burke: 'Quanto maior é o poder, mais perigoso é o abuso'. Não sei porquê, mas nem isto me deixou mais descansado.
Contudo, de uma coisa estarei seguro e é isto que direi ao meu filho: ainda não se perdeu a liberdade de escolha. É que, curiosamente, aqui em casa somos todos clientes Vodafone e a consola de jogos que temos é a Wii, por causa do Guitar Hero. Coincidências, apenas.

Bem sei: título fraquinho. A verdade é que o trocadilho cai que nem ginjas no tema da Liga Europa de hoje. Vai ser fácil de perceber, vão ver.
Admito que estou dividido. À primeira vista, numa análise mais superficial e imediata, confesso que fiquei (mais uma vez) desapontado com a medida governamental que tive oportunidade de ler num site exclusivamente dedicado a apresentar aos cidadãos seniores europeus oportunidades de gozarem a sua velhice na plenitude das suas capacidades financeiras, sem se preocuparem com aquilo que os impostos podem levar das reformas para as quais trabalharam durante uma vida inteira. Estes é que são do bom tempo, porque quando chegar à minha altura, e pelo andar da carruagem, terei que trabalhar até que a espondilose me doa. Isto se não morrer antes, o que para o Estado deve ser um alívio:"olha, menos um a delapidar a caixa de aposentações" (se nessa altura houver). Já faltou mais, se é que este pensamento já não passou pela cabeça de alguém...
A notícia, se ainda não foram cuscar o link, apresenta Portugal como um dos paraísos fiscais para a terceira idade mundial dados os benefícios que o Governo da República Portuguesa (não sei se sabem, mas é assim que o nosso país é denominado na Constituição, Portugal é para os amigos) estão a dar aos reformados estrangeiros que queiram fixar residência neste cantinho soalheiro e com baixo custo de vida.
Diz o artigo que nos primeiros 10 anos há o bónus de isenção de imposto, tentando assim cativar os reformados a trocar o cinzento e chuvoso Reino Unido ou a fria e nevada Alemanha por Portugal. Sim, porque são estes reformados e não aos da Albânia ou de Malta a quem o governo deve estar a piscar o olho e a flectir o indicador, como se de clientes se tratassem.
Como expliquei de início, primeiro senti-me desiludido. Então fazem isto aos estrangeiros... e os portugueses? E os que contribuíram a vida toda para que o país tivesse o que tem hoje? Imagino que esta medida seja uma espécie de dívida de gratidão para com os cidadãos das economias dominadoras europeias pelos seus precosos fundos comunitários, que inundaram este país de alcatrão e de centros comerciais, sob a batuta do actual Presidente da República. Mas como dizem os Homens da Luta: E o povo, pá? Não dá para estender a medida aos nossos reformados? Não têm direito? Ou está-se, subrepticiamente, a dizer-se-lhes para procurarem abrigo fora de portas?
Esta foi a minha análise a quente, como a nossa meteorologia. Depois veio a brisa nórdica. Calma. Isto até tem alguma lógica. Acena-se aos cotas ricos endinheirados com uma isençãozita de impostos, eles caem no ALLgarve (ainda mais) e à volta dos campos de golfe por esse país fora como moscas para de seguida, segundo os ensinamentos do Tio Sam, desatarem numa corrida desenfreada de consumismo no país, aumentando assim o PIB:
fonte PorData
Parece uma equação difícil de errar no resultado, verdade?
Se os objectivos se concretizarem, pode ser que nessa leva de imigrantes seniores venha alguém, ainda, com vontade de dar uma perninha na governação.
E à boa maneira da dialética socrática (do verdadeiro, o grego!), depois da tese e da antítese, vem a síntese. Ficamos num ponto intermédio, mas sem equilíbrio. É uma ideia com bons fundamentos e a finalidade até pode trazer benefícios, mas em última análise só revela mais do mesmo: uma perfeita desconsideração pela população, que tem todo o direito de se sentir discriminada com estas medidas. Por muito nobre que seja construir um estádio na Palestina, de que vale a nobreza quando se aumenta a carga fiscal sobre os medicamentos num país onde existem doentes que os vão deixar de poder comprar? Faz-me lembrar as praias de certos resorts de luxo espalhados por esse mundo fora: só para turistas. Proibida a entrada a autóctones.
Em resumo: este país, afinal, é para velhos, mas não para os da casa!
Já agora, este post não dispensa a leitura da notícia original (em inglês)
Imagem: David Dennis em Creative Commons

Não preciso de dizer mais nada. Lembram-se todos, com certeza, do porta-contentores inglês que encalhou a 16 de Fevereiro de 1980 no Tejo, mesmo em frente ao ministério da Marinha (ele há com cada coincidência!) e que, dois dias depois, virou-se ainda mais, ficando de casco (vermelho) à mostra, tornando-se um perigo para a navegação. Mas, como sempre, os portugueses têm uma apetência especial para ver coisas boas na desgraça e até houve quem ficasse com o naufragado navio na memória como um dos monumentos nacionais de eleição. Aliás, descobri até que parte do material do famoso navio serve de decoração a um bar chamado "A Casa do Leme".
A coisa também não era para menos. Foram três anos (acabou por ser removido somente a 2 de Dezembro de 1983, após várias tentativas falhadas) que aquela peça metálica, mais parecida com um futurista parque de skate, esteve à vista de todos, chegando mesmo a alimentar as tardes de muitos reformados. Grande parte da terceira idade lisboeta perdeu largas horas sentada nos bancos de pedra do muro do Terreiro do Paço junto ao rio a mandar os seus palpites sobre a melhor forma de virar e remover facilmente o navio. Isto, claro está, durante as várias tentativas infrutíferas que iam sendo feitas. Imaginam-se os comentários: «Obviamente que assim não vão a lado nenhum...»
Por fim, lá veio uma equipa do estrangeiro para finalmente tirar dali o que já era visto como uma vergonha nacional. Havia mesmo quem dissesse que o barco, dali, já não saía.
Lembrei-me do Tollan, por associação de ideias à discussão do último Orçamento de Estado e da possível entrada do FMI. Mais outra parvoíce como outra qualquer. Está visto que, por mais voltas que a democracia portuguesa dê, a alternância de poder está no mesmo ponto em que se encontrava a monarquia no final dos seus tempos. O rotativismo de então, entre regeneradores e progressistas, só deu lugar ao actual rotativismo entre socialistas e social-democratas. Qual é a diferença? Não pagamos adiantamentos ao rei, mas pagamos (e bem) os adiantamentos (a fundo perdido) que outros fizeram para construirem resorts de luxo em Cabo Verde.
Enquanto isso, o país, encalhado, assiste a tentativas de virar a situação (e só lá vai mesmo com uma rotação de 180 graus), cheia de 'reformados' (não em bancos de pedra, mas nas cadeiras das televisões, em talk shows) a mandar os seus palpites em como seria simples e eficaz dar a volta à desgraça, quando a solução poderá ter mesmo de chamar novamente a rapaziada de fora (FMI) para dar conta do recado.
Ninguém se entende. Trocam-se acusações (olha que novidade!), trocam-se carros topo de gama como quem contrata assessores, trocam-se robalos por favores, trocam-se frutas por arbitragens, trocam-se nacionalidades e até o país pela Europa. Por prestígio, apenas. Trocas e baldrocas de quem faz orelhas moucas ao que se passa fora dos gabinetes de São Bento. Às vezes até fico na dúvida se sabem mesmo o que se passa ou se pensam que o povo é sereno e é só fumaça!
O Tollan continua encalhado, meus caros. E pelo andar da carruagem vai continuar assim por muito tempo.
Já agora, deixo um excerto d'Os Maias, que ando a reler, muito curioso...
O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o empréstimo tinha de se realizar «abruptamente». Os empréstimos em Portugalconstituíam hoje uma fonte de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministros era esta - «cobrar imposto» e «fazer o empréstimo». E assim havia de continuar...
Carlos não entendia nada de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.
- Num golpezinho muito seguro, e muito directo - disse Cohen sorrindo - Ah, sobre isso, ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota é inevitável: é como quem faz uma soma...
Foto de ALFREDO CUNHA/LUSA PRT Lisboa LUSA © 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A

É mais uma contratação de peso para o "31 da Sarrafada": Chama-se Pedro Figueiredo, é jornalista, homem do Norte a viver em Lisboa e gosta de beber piratas. Quem o segue no Twitter conhece bem as suas opiniões, o sentido de humor apurado e o espírito crítico-positivo com que encara a vida. Quem não o segue no Twitter é melhor começar a seguir desde já. Com a promessa de uma coluna semanal - os jornalistas têm destas coisas - chamada Liga Europa o Pedro começa já hoje.
E nós vamos tentar com que ele partilhe mais das suas ideias por aqui, pois fazem falta.
Está bem que estamos na Páscoa, mas ter de levar com a “coroa de espinhos” Rui Santos na cabeça, a comentar o jogo durante 90 minutos mais as compensações que o árbitro quis dar, não lembra nem ao Pilatos.
(Em stereo)
(Imagem de autor desconhecido)