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31 da Sarrafada

31 da Sarrafada

20
Jan11

Liga Europa: Todos para Erasmus, já!

Pedro Figueiredo

 

 

Uma das coisas mais extraordinárias em Portugal é a quantidade de comentadores que aparecem em todos os meios de comunicação. Aliás, não é à toa que os programas de participação directa nas rádios e nas televisões têm tanto sucesso. Não há nenhum fórum em que não fiquem participantes de fora pelas próprias obrigações de emissão. Todos têm sempre alguma coisa a dizer. É bom. Somos feitos de uma massa crítica e, afinal, como se fartam de dizer os políticos num tom entre o cínico e o orgulhoso, foi essa uma das grandes conquistas de Abril. No entanto, parece-me que aqui se aplica bem o velho ditado popular de que 'em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão'.

 

Ninguém é um exagero. Alguém haverá de ter um fundo de verdade no que diz, até porque isto também não é um país de mentecaptos. Bem pelo contrário. Há gente de grande valor e arrisco-me a dizer que são a esmagadora maioria. Se assim não fosse, porque têm os portugueses tanto sucesso quando vão para o estrangeiro, nem que seja para desempenhar funções de empregados de limpeza. Nunca encarei o facto de os portugueses serem trabalhadores apreciados no estrangeiro como um mito urbano. Tirando raras excepções, porque as há em todo o lado, a verdade é que sempre ouvi reconhecer as qualidades profissionais dos portugueses lá fora, independentemente das funções que possam exercer, desde o mais simples humilde empregado da construção civil ao mais qualificado economista, como é caso de Horta Osório. Não creio que que os ingleses estejam de acordo em pagar-lhe um ordenado à Cristiano Ronaldo, só pelo seu ar de manequim da Hugo Boss.

 

Muitas das vezes, quando deixamos os nossos filhos em casa de amigos, desdobramo-nos em recomendações, ainda no carro, antes de os deixar em casa de estranhos, a principal para que se portem bem e para que não façam asneiras. No fundo, para que não nos deixem ficar mal. Fica-se sempre com o coração nas mãos. Sabe-se lá o que farão, já que em casa temos maneira de controlar a situação de outra forma. O espanto aparece quando os vamos buscar. Correu tudo lindamente e regressamos a casa com o orgulho de outros pais acharem que temos uns anjinhos em casa. Quem tem filhos pequenos, reconhece esta história.

 

Voltemos, pois, a saltar para a dimensão nacional. A questão que se coloca é simples: se somos assim tão bons, porque não o somos dentro de casa? Porque é precisamente dentro de casa que sentimos o à-vontade de sermos precisamente quem somos. Não precisamos de fingir que somos bem comportados e só quando temos um pai ou uma mãe de regras rígidas e inflexíveis a toda a linha é que percebemos que nem dentro de casa podemos vacilar. É por isso que não me espanta o facto de haver, ainda, quem tenha saudades da ditadura, onde nem dentro de casa havia hipótese de sermos quem somos. É talvez por isso que a saudade seja considerada um sentimento tão português. Pudera, lá fora não é a mesma coisa que cá dentro. É como se o nosso país representasse a eterna juventude, os tempos em que se podia fazer tudo e tudo era justificado pela tenra idade...

 

Não me parece viável pedir a governantes escandinavos que venham fazer uma perninha aqui ao Sul da Europa, porque a população continuaria a sentir-se em casa e os resultados não seriam os melhores. Também não pedimos aos pais de nenhum dos amigos dos nossos filhos que venham lá a casa ficar umas noites para tomar conta da criançada. Voltar à ditadura, então, está completamente fora de hipótese (agora digo eu, foi para isso que serviu o 25 de Abril!). Logo, a solução mesmo é colocarmos o povo a fazer um Erasmus de cidadania no estrangeiro. Tenho a certeza que a União Europeia concordaria, apoiando como um projecto de verdadeira integração. Para aprendermos a ser bons cidadãos lá fora. Porque isto de criticar só os governos também tem muito que se lhe diga. É que parece-me que a nossa classe política é apenas um reflexo do país que somos.

 

Imagem: "Dala HorseAttributionNoncommercialNo Derivative Works Alguns Direitos Reservados por testpatern

21
Out10

Liga Europa: Os Três Milagres de Cavaco

Pedro Figueiredo

 

 

Tive eu um daqueles momentos de luminosidade ideológica, quando percebemos a chamada 'big picture', ou simplesmente um momento de paragem cerebral idiótica, e apercebi-me da importância que realmente pode ter a próxima eleição presidencial.

 

Imaginemos por momentos - ainda que para muitos tal fosse bom demais de acontecer - que Cavaco Silva não consegue garantir a reeleição para o cargo de Presidente da República. Chocante? Talvez. Afinal era só a primeira vez que tal acontecia em Belém depois do 25 de Abril. E se recuarmos ainda mais, talvez tenhamos que andar muitos mais anos para descobrir algo parecido.

 

Imagine-se, de novo, as primeiras páginas, as aberturas dos telejornais e os directos jornalisticamente histéricos que haveria na noite da contagem dos votos. E não haveria razão para menos. Os portugueses perguntar-se-iam como, afinal é que tal tinha sido possível? Nós, de tão brandos costumes, não conseguimos eleger um Presidente por dois mandatos seguidos? Afinal que raio de povo somos nós? Talvez, então, as pessoas pudessem perceber que, afinal votar faz toda a diferença. Seria com um simples voto que tal teria sucedido. Talvez, então, as pessoas pudessem perceber, de uma vez por todas, que afinal, pode-se contribuir para que as coisas não fiquem como sempre. Há poder para mudar. Milagre Um de Cavaco.

 

As pessoas tomariam consciência que podem, de facto, mudar o rumo das coisas. Começam a estar mais atentas e a deixar de serem socialmente amorfas. Olham para as notícias de outra maneira. Vêm os franceses parar o país por causa do governo querer aumentar a idade da reforma para os 62 e pensam: «É pá, mas nós já temos que marchar até aos 65! Onde é que eu estava com a cabeça quando isso foi aprovado pelo meu governo? Porra, pá! Nem um pneuzito queimei em sinal de protesto! Querem IVA a 23%? Esperem lá que eu tenho ali aquele colchão velho da sogra para deitar fora, vou já dizer-te como ele fica tão bem no meio da SCUT...». É preciso que as pessoas andem atentas à realidade que as rodeiam. Milagre Dois de Cavaco

 

Sempre ouvi dizer, ainda que grosseiramente dito, que quem não chora, não mama. O povo começava a perceber que protestar, a sério, pode resolver a questão. Afinal, 120 mil professores a marchar pela Avenida da Liberdade a dizer, em conjunto, que não gostam da ministra, pode não ser imediatamente perceptível, mas a verdade é que esses mesmos professores continuam a dar aulas e a ministra... já não o é. Protestar e dizer que não se concorda, pode dar resultado. Se não houver protesto é que não dá resultado mesmo. Milagre Três de Cavaco.

 

O  voto é só uma forma de protesto.

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