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31 da Sarrafada

31 da Sarrafada

30
Mai10

Fui jantar com Passos Coelho, mas ainda não sei porquê

FF

 

 

Na passada sexta-feira decorreu um jantar entre alguns bloguers e Pedro Passos Coelho, em Lisboa. Sem agenda prévia, o jantar não tinha um objectivo concreto, nem uma mensagem a passar. A promessa tinha ficado feita desde o Congresso de Carcavelos e foi cumprida mas os objectivos e o timing desta conversa ficaram por perceber. De qualquer modo são sempre de louvar este tipo de iniciativas.

 

 

Passos Coelho estava a jogar em casa: a maioria dos bloguers presentes são publicamente alinhados com Pedro Passos Coelho, e os que não o são, são alinhados com o PSD. Excepto eu. Seria de esperar que Passos Coelho aproveitasse esta oportunidade para passar uma mensagem, para motivar os opinion makers presentes (com mais ou menos peso específico na blogoesfera nacional) para o apoiar neste momento que, apesar das sondagens muito positivas para Passos Coelho, é complicado para o País e também para o PSD.

 

Não escondo que em Carcavelos tinha ficado impressionado, pela positiva, com Pedro Passos Coelho: pareceu-me articulado, inteligente e com um profundo conhecimento do que falava. Na altura falou do Sistema Nacional de Saúde e o que disse não deixava de fazer sentido.

 

Mas o que é facto é que este jantar revelou um Pedro Passos Coelho que ainda não aprendeu a comunicar numa linguagem que seja acessível a todos. Quando fala de economia percebe-se que esse é o seu forte, e o tema com que sente mais à vontade, mas fala como se todos nós fossemos economistas. Quanto tentou demonstrar o seu conhecimento sobre temas mais específicos agarrou novamente no tema do Sistema Nacional de Saúde e limitou-se a repetir a sua opinião que já é sobejamente conhecida de todos.

 

O discurso ténico de Passos Coelho será por certo apreciado por aqueles que o líder do PSD tem tido que contactar recentemente devido à grave crise económica que o país atravessa. Suspeito mesmo que será uma lufada de ar fresco para muitos.

 

No entanto, este discurso, na minha modesta opinião, não chega para cativar o grosso do eleitorado que teria mudado de canal, passados uns minutos, se o jantar tivesse a ser transmitido em directo numa qualquer televisão.

 

Durante o jantar tive a oportunidade de fazer algumas  perguntas a Passos Coelho:

 

1. Em que fase está a proposta de revisão constitucional e vai esta, ou não, reflectir um Estado que necessita de ser mais célere e mais adaptado à sociedade actual?

 

2. Numa campanha feita sob o mote "Mudar" o que foi que mudou no PSD, desde que Passos Coelho é líder?

 

3. Porque razão não está o conteúdo do site do PSD disponível em Creative Commons? Qual a posição do PSD no que diz respeito ao software livre?

 

4. Não é a primeira vez que o líder do PSD diz algo, que depois aparece nos jornais, para depois ser desmentido no dia seguinte. O que aconteceu à conta de Passos Coelho no Twitter, instrumento de comunicação directa por excelência?

 

5. Olhando agora para trás, continua a pensar que não ter constituído um Governo Sombra, foi a melhor opção?

 

Quanto à revisão constitucional, o PSD terá o ante-projecto pronto numa semana mas não fiquei esclarecido quanto ao seu conteúdo. Usei o exemplo Inglês, onde um novo governo começa a governar num prazo de poucos dias ao contrário do que acontece em  Portugal onde o processo demora bastante mais. O mesmo se aplica quando são necessárias tomar medidas urgentes: em Portugal uma medida urgente tem que ser aprovada pelo PR, que tem 90 dias para a promulgar, remeter para o TC ou vetar. E todos sabemos o quanto o mundo pode mudar durante esse tempo.

 

Passos Coelho aproveitou a segunda questão para mencionar a sondagem da Marktest que o dá a si, e ao PSD, próximos da maioria absoluta. Segundo Passos Coelho, esse é um sinal que o PSD se tornou uma alternativa credível ao PS. Também, segundo Passos Coelho, mudou a dinâmica do Partido e a maneira como se faz política.

 

Até que ponto é que esta nova dinâmica será atraente para o eleitorado, devido ao visível problema de comunicação que já citei, é algo a observar atentamente nos próximos meses.

 

Quanto à questão do site do PSD, Passos Coelho apenas percebeu do que eu estava a falar quando lhe dei o exemplo concreto: hoje em dia se eu, ou qualquer outro blogger, copiarmos algo que está no site estamos a cometer uma ilegalidade. Com uma Licença CC isso já não aconteceria. O líder do PSD comprometeu-se a passar a mensagem a quem de direito dentro do partido. Quando ao software livre, Passos Coelho tem a noção de que se pode poupar dinheiro com a sua implementação mas, infelizmente, não entende que a implementação de software livre é mais do que uma medida economicista: é uma forma de ver e estar na sociedade. Por detrás do software livre existe toda uma postura de partilha, uma comunidade global que gere e implementa conhecimento pelo prazer de de o fazer e é essa génese que é importante como conceito.

 

Quanto à conta no Twitter, Passos Coelho admitiu que é uma falha. Aliás, Pedro Passos Coelho não tem medo de reconhecer os erros, o que é algo de saudar. Foi interessante de observar que o líder do PSD percebe o Twitter e que quer ter a noção exacta do que se está a passar e do que está a transmitir, apesar de serem outros a gerir a conta por si. Veremos se em duas semanas, a conta estará novamente activa.

 

A questão do governo sombra leva-nos novamente a este problema, profundo na minha opinião, de comunicação. Passos diz que existe o Gabinete de Estudos do PSD e que este está a trabalhar. O pelouro da Agricultura ainda não tem ninguém e foi aqui que se ficou a saber que o novo líder do PSD não sabe o que é o Farmville. Mas isso são pormenores:  um Gabinete de Estudos soa a algo cinzento, onde uma meia dúzia de intelectuais se reúne à volta de uma mesa para discutir, na teoria, um tema e depois, produz um relatório de centenas de páginas que ninguém lê.

 

A questão formal do que é um governo sombra, a mim, não me interessa. Gostaria de ver elementos do PSD designados para as diversas áreas, a responder, taco a taco, imediatamente, ao que se passa no dia a dia do país. Se seriam esses os novos ministros, ou não, de um futuro governo PSD, também não me  interessa: "Se fossem bons se-lo-iam com certeza, e trariam consigo um capital de confiança acumulado*; se fossem maus, todos iriam compreender (senão louvar) o facto de serem substituídos e não integrarem um futuro governo.

 

Em jeito de conclusão, que isto já vai um lençol daqueles de king size bed extra large, é sempre bom ter oportunidade de passar umas horas com aquele que muitos apontam como o futuro Primeiro Ministro de Portugal, e poder tentar obter respostas a algumas perguntas num ambiente menos formal*. É pena, na minha opinião, que Passos Coelho não tenha aproveitado esta oportunidade para aprofundar mais a sua visão sobre o que quer para o PSD e para o País numa linguagem que fosse mais fácil de entender por todos. Nesse aspecto foi uma oportunidade perdida e algo que deveria fazer pensar aqueles à sua volta.

 

-------------

 

* Menos formal é aqui usado de propósito pois Passos Coelho tem dificuldade em ser informal, algo que se apreciaria num jantar sem agenda e sem objectivo definido. Começar por tirar o casaco teria sido uma boa idea.

 

► Recados para o lado - Ir a um jantar destes para apenas perguntar aquilo que já foi respondido até á exaustão nos jornais é não perceber nada disto e não aproveitar a oportunidade. Da mesma maneira, começar uma pergunta por afirmar que a pergunta é de difícil resposta é passar um atestado de estupidez ao interlocutor. Estou curioso em ver o que é que vai saír hoje no Combate de Blogues.

 

PS: Falei com o Vasco Campilho que assim que chegou ao restaurante me veio cumprimentar. Aliás se calhar este  jantar foi apenas um pretexto para que o Vasco pudesse deixar de me ignorar e viesse falar comigo. E falámos. Mas ainda não nos desbloqueou no Twitter.

 

Foto: Mark Anbinder utilizada sob uma Licença Creative Commons

 

UPDATE: O Vasco Campilho enviou hoje este Tweet. Tudo está bem quando acaba em bem, mas ainda lhe devemos um megafone!

 

* Corrigido em termos gramaticais devido ao alerta dado pelo leitor Luís, que agradeço.

 

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