Espólio Sarrafeiro
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Sexta-feira, 15 de Abril de 2011

 

Lembro-me da cadeira de Estudos Europeus na faculdade como uma das matérias mais secantes dos tempo de universitário, mas tenho-me lembrado do assunto nos últimos tempos demasiadas vezes. Andava com o Tratado de Roma (em livro) debaixo do braço para trás e para a frente (ainda o guardo numa estante), mas o nome de Robert Schuman (e também Jean Monet) foi o que mais me ficou na memória. Talvez por ser o mais emblemático e sonhador de um continente que gostava de ver unido, a quem o Parlamento Europeu (do qual foi o primeiro presidente) declarou carinhosamente como o «Pai da Europa».

 

O pós-guerra também terá contribuído (e muito!) para a fermentaçao da ideia de uma Europa sem conflitos e o sonho começou a ganhar forma. Sabia-se que o percurso seria longo, mas como diz António Machado no seu poema: o caminho faz-se caminhando. E assim nasceu, em 1952, a CECA (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço).
 
Não quero espetar uma seca a ninguém, mas a história ensina sempre muito do presente e a nota introdutória serviu apenas para facilitar a ligação entre o sonho de Schuman e o pesadelo egoísta que o velho continente está a viver. Os passos foram sendo dados e com a CEE, mais tarde rebaptizada União Europeia, imaginou-se que já se tinha ultrapassado o chamado ponto-do-não-retorno. Houve toda uma geração de políticos (anos 80 e 90) que regaram bem a semente de Schuman e mesmo contra alguns eurocépticos foram fazendo acreditar que a Europa, mesmo com toda a sua diversidade cultural, podia funcionar como um bloco forte e compacto.
 
Só que jamais seria na bonança que se revelaria a consistência da coesão europeia, se é que alguma vez existiu. A crise global (porque a globalização é para bem e para o mal) acabou por revelar a imensa manta de retalhos que é esta velha Europa, pessimamente preparada para as adversidades de um mercado que já não tem só no bloco norte-americano e no Japão (e outros países satélites asiáticos) um rival. Há países (já não emergentes) que marcam (e controlam) a agenda económica, alguns dos quais nem se fazia a mínima ideia que pudessem chegar onde estão (como o Brasil).Este recente episódio (e era aqui que queria chegar) da possível recusa da Finlândia em contribuir para o resgate financeiro de Portugal é só mais uma brecha na (des)União Europeia, que mostra não ter a mínima ideia do que quer para si mesma, não só agora, como num futuro a médio e longo prazo. É certo que as circunstâncias históricas também não jogam a favor. Para além de uma crise mundial grave, esta geração de políticos está longe de ter a estrutura mental, ideológica e mais importante ainda, a perspectiva de futuro que tiveram outros que os precederam, que os catapultaram da simples categorização de políticos à de verdadeiros estadistas. Daqueles para quem a História guarda sempre um lugar de honra. Veja-se, por exemplo, a diferença entre Angela Merkel e Helmut Kohl.
 
Que em Portugal não se perceba que esta é a hora de colocar de lado as diferenças ideológicas e partidárias e combinar esforços para mudar o rumo do país, não me espanta. Afinal, desde sempre que nunca nos soubemos governar nem deixámos que nos governassem (esta segunda parte já teve que mudar)! Agora que o mesmo se passe no resto da Europa, já me custa. Já nem os políticos escondem os seus umbiguismos, que facilmente resvalam para a estupidez. Há uns tempos foi Cavaco Silva que ouviu do presidente da República Checa um ralhete em público pelas escandalosas derrapagens dos défices de alguns países europeus, numa clara alusão ao caso português. Curiosamente agora foi apanhado a surripiar uma caneta no Chile. Mais recentemente foi um turista 'acidental' finlandês que, na Madeira, disse abertamente a Passos Coelho que só esperava não ter que ser ele a chegar à Finlândia e a pagar aquele jantar.
 
É verdade que o respeito ganha-se, mas também se deve beber chá em pequenino e, pelo vistos, na Finlândia e na República Checa, não se deve ter esse hábito. Até porque o senhor deve esquecer-se que uma parte do seu jantar também teve a contribuição dos telemóveis Nokia que os portugueses compram. E é assim que vai a Europa... Mude-se o hino da Nona de Beethoven para a Lacrimosa do Requiem do Mozart. É mais apropriado.


sinto-me: Lacrimoso

Uma Sarrafada de: Pedro Figueiredo às 00:46
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3 comentários:

Vitriólica @ 04:39

15/4/11

Costumo criticar nos portugueses o individualismo e umbiguismo; mas de facto, a actual geração de políticos que governam e gerem (n)a Europa não dá provas de honrar - respeitar, sequer - a herança de Robert Schumann, Jean Monnet...
Temos uma UEC - União (mais ou menos) Económica Europeia - mas a Europa dos Cidadãos, de facto, não existe... e é pena!

Pedro Figueiredo @ 11:01

15/4/11

A Europa dos Cidadãos pode ser complexa, mas nunca utópica. As diferenças sempre existiram, até dentro dos próprios países (veja o caso das regiões espanholas e da Bélgica francófona e flamenca), mas isso não significa necessariamente divisão. Tenho a certeza que, por mais independentistas que sejam os bascos e os catalães, se os franceses decididessem galgar os Pirinéus para expandir território, seriam todos espanhóis.

A crise (de valores) é mesmo política e em matéria de negócios estrangeiros, o povo 'come' a agenda dos governos.

Obrigado pela dica, Vi.

Vitriólica @ 11:26

15/4/11

Ao escrever que "não existe uma europa dos cidadãos", eu queria dizer que quem, actualmente, "decide" a Europa pensa em termos políticos, ou económicos (ou lá o que é que "eles" pensam), mas nunca que a Europa é um conjunto de cidadãos, de pessoas, de seres humanos - conjunto sem o qual esses políticos-decisores não teriam razão de ser...

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