Espólio Sarrafeiro
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Quinta-feira, 17 de Março de 2011

 

Oremos. Já ninguém duvida que uma boa parte da população está em sofrimento. Um drama ao qual o Governo diz ser sensível e tudo estar a fazer para minorar o impacto que as necessárias e exigidas (pelos parceiros europeus) medidas de austeridade terão nos cidadãos em condições de maior fragilidade. O benefício da dúvida dá quem quer.

 

Com o anúncio de um novo PEC (versão 4, que faz parecer o Plano de Estabilidade e Crescimento uma autêntica saga do Rambo), a situação política tornou-se um autêntico drama de Beckett, cujas personagens, na esperança de lhes ser aliviado o sofrimento, ficavam à espera de Godot.

 

O impasse é claro. Sócrates quer mais um cheque em branco do seu mais directo adversário, arrastando o PSD e Passos Coelho para mais uma vinculação (nem que seja pela abstenção) a medidas pouco populares que se avizinham, agitando de novo a bandeira de uma crise já está instalada há muito tempo. O Primeiro-ministro espera, assim, pelo que Passos Coelho apresentará como estratégia política, independentemente do que as figuras que à sua volta gravitam possam dizer. É da boca de Passos Coelho que terá de sair a posição do seu partido.

 

Encostado às cordas, o líder do PSD parece não saber bem se a insatisfação nacional está já no ponto rebuçado. Aquele em que lhe permite deixar cair o Governo, forçar eleições antecipadas e poder assumir o poder, como pretende. É uma dúvida quase existencial. Em política, os timings são determinantes e um erro de calendário poderá deitar tudo a perder. Não é fácil tomar decisões desta natureza, mas é nestes momentos que os homens certos se revelam. E há até quem, próximo de Passos Coelho, acredite que uma decisão firme e vertical já vem tarde. Aliás, não é por falta de aviso que Passos Coelho deixará de arriscar. A questão é que também Passos deve estar à espera. À espera que seja Cavaco Silva a fazer alguma, já que o Presidente da República falou num segundo mandato de magistratura mais interventiva. E para ter saído de Belém tão confiante a irredutível é porque a conversa foi proveitosa.

 

Cavaco Silva não vai fazer nada. Porque nem vai precisar. Vai, também, ficar à espera que Sócrates cumpra o prometido e lançar o país em mais um desgastante processo eleitoral, no qual o PSD se vai assumir como alternativa, com as garantidas críticas do PS de terem criado uma crise numa altura em que o país devia ter estado unido (como se alguma vez a classe política tivesse dado o exemplo). No fundo, ficaram todos à espera uns dos outros, enquanto o povo aguardava a solução que os tirasse do sofrimento. E eleições não é certamente a resposta.



Uma Sarrafada de: Pedro Figueiredo às 18:13
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