Espólio Sarrafeiro
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Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011

(Alerta de conteúdos: alertam-se as pessoas mais sensíveis que este post contém Deolinda)

Cada vez estou mais convencido de que há dois portugais. Ou três. O real, o imaginado e o desejado. Aparentemente nenhum deles é grande coisa mas tem o inconveniente de pôr as pessoas a viverem realidades diferentes e, pior, a ver as coisas de forma diferente. Ou pior, a não ver.

Quando no meu portugal vejo aparecer uma música de que as pessoas se apropriam, pelo tanto que se revêm nas palavras, logo vem o outro Portugal, o que não, que música de intervenção é Zeca Afonso, aparentemente começou e acabou com ele, privilégio eternamente reservado, assim à democrata. Piora se um qualquer Louçã se atreve a uma referência à dita canção, porque aos 'zecas' junta-se mais um portugal, o do preconceito, o da ideia feita, onde qualquer verdade, se dita na voz de Francisco Louçã ou de Paulo Portas passa de imediato a tenebrosa demagogia, a palavra mágica dos tempos correntes para ignorar verdades.

No meu portugal há um Estado absolutista que me impõe regras que nem deviam ser legais. Que me obriga a passar recibos verdes online,. Que me obriga e entregar o IRS online. Mas que depois não é capaz de me deixar votar online, pois se nem ainda chegou à fase de conseguir condições técnicas de eu conseguir saber o meu novo número de eleitor online para poder votar! (porque no meu portugal eu sou obrigado a pagar um cartão de cidadão - a cidadania paga-se - e um novo número de eleitor mas o meu portugal não tem quaisquer obrigações para comigo, nem de me informar em devido tempo que novo número de eleitor Comprei).

No meu portugal o serviço de internet não é gratuito e o Estado obriga-me a pagar por um. No meu portugal ter conta num banco custa dinheiro e o Estado obriga-me a ter uma (obriga, sim, porque o cheque do "reembolso" do IRS, o dinheiro que durante o ano fui emprestando ao estado e que este me faz o favor de devolver mas sem juros, o que não vale no sentido inverso, não pode ser levantado, tem que ser depositado).
No meu portugal eu desconto todos os meses para a segurança social, mesmo que esteja há 4 meses sem ganhar 1€ que seja. Porque eu não desconto só sobre o que ganho ou quando ganho (sim, recibos verdes, claro), há outros portugueses deste portugal que o fazem, mas também não é muito melhor, descontam sobre o pouco que ganham quando têm emprego regular e deixam de descontar quando estão desempregados. Não é grande vantagem.

O portugal imaginado chama a isto progresso, Choque Tecnológico, vamos ser o primeiro e-País. Sendo assim tem lógica que sejamos nós a primeira aplicação ai-Povo. O Portugal desejado neste momento não se sabe muito bem onde anda, parece que se tem que perguntar a uma senhora alemã.

Ah! mas eu também estou a falar mal do governo... Quem disse? Eu nem falei em governo! Você é que pensou nisso, eu só falei em Estado. O Estado livre este em que vivo desde os 6 anos. Teve muitos governos, já. Todos juntos pouco mais conseguiram que fazer o melhor que puderam e souberam para não estragar muito. Não, eu estou a falar de como é duro viver num país absurdo, só isso, nem estou a falar de política, estou a falar da vida real, do dia-a-dia. Os políticos, esses não vivem no portugal dos recibos verdes, dos descontos para a reforma que não vai haver.

O meu portugal revolta. Parece que revolta a todos mas de formas diferentes. A uns causa revolta a classe política, assim, por inteiro; a outros causa revolta viver num país em "que para ser escravo é preciso estudar"; ainda a outros causa maior revolta que uma música possa estar a espelhar essa revolta (ainda se fosse do Zeca...). Mas como é que se revolta uma "geração sem remuneração"? "Vão sem mim que eu vou lá ter" que agora estou aqui no conforto do sofá a ver a revolução no Egipto na Aljazeera porque hoje somos todos egípcios!

Somos todos egípcios o CARA...ças! Eu não sou! Não sou porque me recuso a, com a minha passividade, insultar um povo que agiu, em vez de calar em angustia a revolta; agiu, quando percebeu que não se chega a lado nenhum com cantigas, nem com palavras; agiu, quando em vez de escrever desabafos estéreis (assim como este), levantou o AlCú do al-sofah e decidiu fazer alguma coisa: pedir um Egipto para eles.
Nós temos lá tempo e paciência de exigir um Portugal com P maiúsculo (ou mesmo um Egipto com Pê) para nós! isso envolve manifs e assim. E nas manifs há muita gente. E depois não há lugar para estacionar o carro.

 


sinto-me:

Uma Sarrafada de: arcebisposarrafeiro às 09:48
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