Espólio Sarrafeiro
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Quinta-feira, 2 de Dezembro de 2010

 

 

Um destes ia no carro com o meu filho mais novo e eis que o assunto da conversa despertou-me inusitado interesse. Nada mais nada menos do que eleições para a associação de estudantes do liceu que frequenta. Escusado será dizer que a minha memória recuou uns bons anos, aos tempos em que jotas disputavam palmo-a-palmo a vitória para a direcção da AE.

 

Todos sabíamos quem estava por trás de cada lista embora, tenha que reconhecer, na altura votava naquela que tivesse algum amigo ou, à falta deles, na que tivesse os autocolantes mais giros, que enchiam os meus cadernos de capa preta. Aos quais fartava de sacar as páginas do meio, até os reduzir a um número mínimo de folhas que desse, pelo menos, para escrever os sumários até ao final do ano lectivo!

 

As lutas eram renhidas e, como naquelas idades, uns confrontos mais físicos eram desculpados pela jovialidade da malta, os debates que se queriam de elevada cordialidade, tornavam-se em ajustes de contas fora dos muros do liceu ou, quando a falta de espírito democrático ultrapassava a paciência pelo último toque de saída do dia, era mesmo nas traseiras do velho ginásio que se resolviam as contendas.

 

As eleições eram uma balbúrdia. Chapeladas à moda da monarqia constitucional, que nem adiantava pedir recontagem ou meter recurso no Conselho Directivo, qual observador independente das Nações Unidas. Creio mesmo que os professores e os contínuos olhavam para aquelas paródias como a silly season do ano lectivo. E lá passava...

 

Havia maior espírito de resignação. Não se ganhava naquele ano, ganhava-se no seguinte. Nem que fosse com o expediente do adversário vencedor do ano anterior. E com mais um reforço da juventude partidária correspondente, é claro. Ou seja, com autocolantes mais atraentes, para casos como o meu.

 

No entanto, já naquela altura tinha-se a plena consciência que as associações de estudantes eram uma autêntica antecâmara para uma possível e promissora carreira política (só isto dava um novo texto!). Talvez por isso eu nunca tenha aspirado à política. Sinto-me bem assim.

 

Mas no meio da minha viagem no tempo, algo na conversa do meu filho trouxe-me ao presente como uma injecção de adrenalina num coma alcoólico: uma das listas no liceu dele é apoiada pela TMN.

 

Pára tudo.

 

Apoiada por quem? Repetiu. Não era engano. A lista até é a T.

 

Custou-me a acreditar e ainda hoje estou à espera de material propagandístico da dita lista, sem sucesso. Carece, portanto, de confirmação, embora as canetas distribuídas não deixem margem para dúvidas. Porém, a acreditar na palavra do meu filho, esta radical mudança nos hábitos 'democráticos' dos estudantes até faz algum sentido, mas não no ponto que deveria ser, de facto.

 

Aquilo que era, para as juventudes partidárias, uma busca pelos melhores talentos na arte de convencer os seus pares (popularidade, no fundo!), acabou por se transformar numa fidelização de clientes na raiz.

 

Mas deixemos as considerações de lado e continuemos na conversa. Apesar dos seus 12 anos, o meu filho já percebeu o que lhe espera no futuro. Disse-me que havia listas a prometerem coisas que não podiam cumprir. Uma delas disse que se ia bater pela existência de um dia sem aulas, exclusivamente dedicada ao surf. Ri-me e pensei logo que essa lista só podia ser afecta ao Bloco de Esquerda: pode até ter uma ideias, do ponto de vista popular, interessantes (atenção, utilizei o verbo PODE), mas toda a gente sabe que são difíceis, se não impossíveis, de se concretizar.

 

Ouvi-o a contar mais pormenores das campanhas, em que quase todas as listas tinham Playstations na escola para os miúdos jogarem nos intervalos. Quem as deu?, perguntei. Trouxeram de casa, respondeu-me o miúdo. Fiquei perdido, sem saber qual o andamento a dar à conversa.

 

O meu pensamento estava na TMN. Que o poder político está cada vez mais subjugado ao económico, disso não tinha grandes dúvidas. Só não sabia é que essa triste realidade tinha já descido aos 'militantes de base'. Houve alguma coisa aqui no meio que me falhou à grande. De repente, veio-me à memória uma matéria que tinha dado em inglês no liceu chamada Generation Gap. Nunca pensei vir a senti-la, sinceramente.

 

Num passeio cibernáutico, dei com esta citação de Edmund Burke: 'Quanto maior é o poder, mais perigoso é o abuso'. Não sei porquê, mas nem isto me deixou mais descansado.

 

Contudo, de uma coisa estarei seguro e é isto que direi ao meu filho: ainda não se perdeu a liberdade de escolha. É que, curiosamente, aqui em casa somos todos clientes Vodafone e a consola de jogos que temos é a Wii, por causa do Guitar Hero. Coincidências, apenas.

 

 

Imagem:"Sem título" sob uma licença Creative Commons Some rights reserved por tim ellis


Uma Sarrafada de: Pedro Figueiredo às 08:48
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1 comentário:

Não dou a cara mas gosto de comentar @ 17:07

4/12/10


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