Espólio Sarrafeiro
2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


Sarrafeir@s
Facebook
Share
Network Blogs
<
Related Posts Plugin for Blogs.
Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010

Antes do mais, recomenda-se a leitura deste meu post, para se perceber o que é o défice.

Depois faz-se aqui um disclaimer, que esta é, como sempre, a minha opinião absolutamente pessoal.


Segue o OE num parágrafo e o resto em mais uns quantos.


o OE (Orçamento de Estado) é exactamente a mesma coisa que todas as minhas caras leitoras, no seu papel de donas-de-casa, fazem todos os meses, com a diferença que o Estado é a Casa delas e portanto fazem o OC. De resto é igual: entra dinheiro de várias fontes - receita - e sai para vários lados - despesa. Receita, no OC é salário+/ou outras fontes de rendimento, no OE é impostos + NADA; despesa no OC é pagar contas e no OE é pagar contas. Qualquer dona-de-casa eficiente faria uma melhor figura a gerir este país que este conjunto de nabos, mas isso já são considerações de ordem subjectiva, que vou tentar conter, mas ainda farei mais uma: sabem as caras leitoras quando se vêem a braços com aquelas situações em que ainda falta pagar a conta da água e da mercearia e aparece o parceiro com quem se divide receitas e despesas, todo contente com um saco de dvd's, livros para acrescentar à pilha e mais umas quantas merdas de bricolage, decoração e animação automóvel? Trocado em OE's, esses saquinhos de bens não essenciais, são submarinos e TGV's: brinquedos de gajos. Lá está. QED e siga para o FMI.


Escusado será alongar-me na parte em que se indica que

- o OE proposto é uma merda

- Os gajos não se entendem

- Misturar política com economia só dá porcaria

que isso toda a gente já sabe.

 


Vamos lá então para o mito FMI.


Só vamos saber se o OE é aprovado daqui a uns dias. Entretanto toda a gente (incluindo os portugueses) já percebeu que isto não está grande espingarda e digamos que a confiança, quer interna, quer externa, está pelas ruas da amargura, sendo que está última é inversamente proporcional ao estado da dívida pública. Uma desce, a outra sobe: se parece que não conseguimos pagar a conta, os juros sobem, porque o risco aumenta, obviamente. As caras leitoras emprestariam o melhor par de sapatos a uma amiga que o devolveria em estado impecável e a amiga oferecia uns chocolates como agradecimento, mas se soubermos que a amiga dá cabo deles, se calhar dizemos-lhe, olha filha empresto-tos mas empresta-me aí esse casaquinho entretanto, que se os sapatos vierem todos lixados, vês o casaco por este canudo - esta é a posição dos investidores estrangeiros, a dívida externa é exactamente a mesma coisa: se a malta não paga, pois obviamente que dá em troca o casaco. Neste momento estamos na fase de até já dar as cuecas, ou inclusive baixá-las. Financeiramente falando, claro.


Face a isto temos três hipóteses: ou há OE ou não há. A terceira (que é separadas das duas primeiras, porque havendo ou não havendo OE aprovado, a verdade é que o FMI  vai começar a falar mais em português e eu não acredito em coincidências e sim em circunstâncias e planeamento) é o tal do FMI que está para os portugueses como a Nossa Senhora de Fátima. Entra por aí fora a pedido e preces, faz uns milagres e isto fica tudo lindo. Era bom, mas não é nada assim, minhas amigas.


Primeiro, um país que não consegue ter um OE aprovado, é uma vergonha. Todos sabemos, mas isso tem um preço. Ok, pois o brio deste país não vale porra nenhuma, adiante, esqueçam, somos incompetentes e atestamos com um chumbo no OE que de qualquer forma é uma merda. Venha o FMI, vamos supor.


O FMI chega e endireita? Diz-se em jeito de mesa de café, que venha, endireita este descalabro todo de uma vez, já que ninguém consegue. Eu também, confesso, tenho esse meu lado de pastorinho à beira da oliveira. Mas agora, mais que nunca, temos que pensar friamente. O FMI chega, analisa e corta. Sim, a dívida externa baixa. Sim, endireita qualquer coisa. E sim, corta a direito. Corta a direito, perceberam? Não há mais conversa, discussões sobre o preço da margarina ou sobre gente a comer de caixotes do lixo. Corta mesmo onde for preciso. E depois, dá o dinheiro a quem? Ah a quem governa. Pois é. Naquela, corta-se aqui e tomem lá mais, agora ganhem juízo. Alguém acha que isto resulta?! Eu tenho algumas dúvidas. Tenho sempre dúvidas quando é preciso tratar os países como crianças mimadas que partem os brinquedos e pedem outros, porque não tenho a certeza que cresçam se lhes derem um raspanete e brinquedos novos. Queria muito - de mãos postas - que o FMI resolvesse todos os nossos problemas. Mas infelizmente, parece-me que também não é por aí.


Soluções fáceis? Não há. Há e vai haver um país pobre a levar cada vez mais pancada até mudar de hábitos. Até nos convencermos todos - todos - que assim não vamos lá. Até nos convencermos que temos que fazer mais, muito mais, gastar menos, muito menos, a troco de ainda menos. E essa porra custa. A única razão que me leva a isso, que me motiva é só uma: é o MEU país. É o país dos nossos filhos. Ainda é, pelo menos. É um bocado de brio e teimosia e ainda acreditar que há gente decente.


E este post virou lamechas e irracional, portanto fica já por aqui com uma nota final para reflexão: não há milagres grátis.


tags: , ,

Uma Sarrafada de: Catarina Campos às 00:51
Link | Concentre-se a comentar

8 comentários:

Pedro Figueiredo @ 08:43

28/10/10

UNFUCKINGBRILLIANT!!!!!!!
Genial, Catarina.
Se a malta percebe que no OC, quando não h dinheiro, a rapaziada tem de ir a correr à Mediatis ou à Cofidis e que no OE é exactamente a mesma coisa, só que os nomes dos agiotas deles são outros bem mais pomposos, a coisa melhora. Só pode melhorar. Ainda que sinta uma ligeira comichão cerebral cada vez que penso que PIOR É IMPOSSÍVEL ;)

Pedro Figas, teu fã ;)

Catarina Campos @ 20:39

28/10/10

Pior não só é bem possível, como é mais do que provável... e obrigada Pfigas :)))

Niagara @ 09:23

28/10/10

Excelente.
E acredito que qualquer dona de casa bem sucedida faria muitíssimo melhor. Porque está a gerir o que é dela. O governo (os sucessivos governos) vão gerindo o que é nosso como se fosse deles: o risco é nosso, o ganho é deles. E eu pergunto-me, qual é efectivamente a validade do OE se, na realidade, há uma percentagem enorme da despesa que é desorçamentada. E faz-me estranheza a maneira como se integra um fundo de pensões como receita sem contemplar as despesas futuras que tal acarreta... O que acaba por ser exactamente o mesmo das parcerias publico-privadas.
Eu acredito que nem é preciso muito para nós (Portugueses) mudarmos Portugal: a tiro é num instantinho. E os alvos estão todos perfeitamente identificados.

Catarina Campos @ 20:41

28/10/10

Niagara, só falta dizer que se o ganho é deles, quando há perdas são de todos nós. Infelizmente, creio que a solução "a tiro" não é viável. Vai ter que ser mesmo à força de sacrifício, muito dele totalmente inútil.
Obrigada pelo comento. :)

DC @ 14:10

28/10/10

Afinal o 31 da Sarrafada, tal como o 31 da Armada também tem a sua Sofia Bragança Buchholz....

Catarina Campos @ 20:48

28/10/10

Caro DC, agradeço a comparação, até porque sou leitora da Sofia B. Bucholz há muitos anos, do tempo do blog "e as fadas também se enganam no caminho". Creio, no entanto que, quer na forma, quer no conteúdo, não há qualquer similaridade de escrita, pelo que depreendo que estivesse a constatar que somos ambas do sexo feminino, coisa que qualquer pessoa terá já dado conta.
Embora algo irrelevante, agradeço o seu comento.

José R. @ 22:51

28/10/10

Boa noite e, apesar dos reparos que se seguem, parabéns pelo post.

Antes de mais, a questão das receitas do estado, que não se resumem aos impostos, como refere. Convém não esquecer os dividendos das empresas (ainda) participadas do estado, algumas das quais apresentam cada vez mais lucros.

Depois, a explicação quanto ao empréstimo e aos riscos de incumprimento, apesar de ser um belo exercício de analogia, esquece alguns aspectos. A Grécia, considerada a grande barracada, deixou de pagar os seus empréstimos? Não consta... O que temos aqui é uma atitude perfeitamente racional, ao contrário do que alguns querem inculcar, dos mercados financeiros. Aproveitam as pretensas dificuldades, curiosamente por eles provocadas e/ou agravadas, para aumentar a sua margem de lucro. Tão somente isso. E vão continuar a fazê-lo enquanto tiverem a mínima desculpa para tal. Porque sabem muito bem que o país irá cumprir as suas obrigações, apenas querem aumentar os seus proveitos. Ora pensemos, se soubesse que a sua amiga não lhe iria devolver o empréstimo, continuaria a emprestar-lhe, mesmo aumentando os juros? É que não podendo pagar, também não há devolução de juros. Se acreditasse verdadeiramente que ela não lhe iria poder pagar, pura e simplesmente não lhe emprestaria. Ponto final.
Mas não. O que está em causa é aproveitar as dificuldades alheias para aumentar o proveito próprio. Com o beneplácito de todo um sistema político. Porquê? Porque, mais tarde,todos irão comer na mesma gamela.

Mais uma vez, parabéns pelo post e obrigado pela sua escrita.

Catarina Campos @ 23:10

28/10/10

José R. eu é que agradeço pelo comento. claro que sim, os mercados são perfeitamente racionais e, obviamente, oportunistas. Nós em Portugal fazemos exactamente o mesmo: investir em dívida pública de países cujo risco resultava em spreads "simpáticos", mas onde se sabia que o risco de incumprimento era praticamente nulo. Não há contemplações de ordem moral em decisões de portfolio nem tem que haver, a única decisão possível é se se está disposto a assumir risco-país desta ou daquela natureza e como é que se faz uma adequação a um portfolio equilibrado (ou não). O próprio país é que tem que tomar medidas para evitar esse normal funcionamento dos mercados que, para mim, não são culpados de coisa nenhuma. É uma economia aberta e global, se queremos ser, como se costuma dizer, players nestes mercados, a regras são estas.

Comentar post

Sarrafadas Frescas

Muda de troika se não est...

Liga Europa: Uma fé inaba...

Liga Europa: Obrigado pel...

Dear Europe

Há crise???...

Liga Europa: O pesadelo d...

Oiçam bem esta voz!

|| Eu a falar sozinho

Liga Europa: Arigato nucl...

Não usem o direito a tort...

Comentários Fresquinhos
  • Não é reteu, é reteve
  • o tunning é uma arte quando bem feito , tudo tem o...
  • O que esconde o Estado Português sobre o naufrágio...
  • Saiba mais sobre o misterioso naufrágio do navio B...
  • Aprecio muito o seu blog. Todos os dias tenho visi...
  • subscrever feeds